Ela revisou seus diálogos, e analisou a maquiagem no espelho. Seu figurino era perfeito, tal qual a cena que ela tanto ensaiara.
Não seria a primeira vez que entraria no palco e seus olhos lacrimejariam, seria pela luz ou pela emoção do recomeço, infindável; um recomeço incômodo e esperançoso. Tantas foram as vezes que encarnou o personagem, que esquecera quem era de fato. Estava acostumada a ser o que as pessoas queriam; não pelo prazer de satisfazê-las, mas por ser admirada, o principal de ser amada.
- Você tem olhos lindos
- São seus olhos. - ela adorava a ambiguidade dessa frase.
Sabia que estava no controle, afinal também era a diretora. Tinha o enredo e ele apenas usufruia da improvisação. Ela adorava o jeito que ele improvisava. Parecia conhecer sua expectativa, parecia estar seguro que era ele quem ela queria para o papel. De fato era, até o momento que ele esquecesse a fala inexistente, que seu beijo não tivesse a paixão requerida, que seus gestos não transmitissem verdade e que o público começasse a se retirar.
- Você tropeça em suas razões, que são poucas e distantes.
- Eu as deixaria desabar, mas restaria algo pra você?
- Querido, não deixe que se vá os sorrisos que tenho guardado. Assim eu fico bem e durmo tranquila.
- Deves saber que nada dura para sempre, são lições que você nunca aprenderá. E como isso pode te fazer bem?
- Contando que você esteja por perto.
- Mas enquanto isso, sou eu quem você possui.
- Você partiria em pedaços o lugar que ocupa no meu coração?
- Seu comportamento é estranho.
- Estranho seria se eu não me apaixonasse por você.
- ...
Fingiria que sim.
Afinal, ele era um ator.
E ela uma atriz.
-
12 de mar. de 2008
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